Quando a vida engasga.
Desses sufocos prosaicos que mais
lembram filmes de famílias italianas. Enquanto engasgava, vi D. Hida, minha mãe, levantar aos gritos e correr para bem longe. Pânico,
eu diria, afinal tratava-se do filho predileto (que meus irmãos não leiam esse
trecho) em apuros bem ali, debaixo do seu nariz. Em meio à confusão que se
instalou naqueles segundos comecei a refletir sobre a brevidade da vida. Sim,
naquela confusão toda eu refleti. Falsa crença essa de supor que temos controle
sobre a vida, sobre as coisas ou sobre as pessoas. Tudo pode mudar numa fração
de segundo. E isso é tão óbvio... mas às vezes é o óbvio que nos salva. Muros,
máscaras, conceitos. Tudo pode cair. O dia planejado, a viagem dos sonhos, o
amor ideal – nada resiste ao apagar a luz da vida. Amanhã, só saudades. E na
vida quantas vezes somos obrigados a nos engasgar por conveniência, educação,
respeito, timidez ou falta de autoridade? Quantas culpas são atribuídas a nós,
sem ao menos sermos responsáveis. E silenciamos para evitar o conflito. Mas a
alma sente. O corpo se ressente. Nem sempre calar é a melhor saída. Às vezes
cobrar aquilo que nos é devido traz paz. Lembrar ao outro o que ofertamos de
coração aberto é, também, uma forma de educar o outro a receber e agradecer. Egoísmo
nosso agir sempre com o deixa pra lá. Aprendemos, inclusive nos conflitos. Eu,
estava num conflito brigando para sobreviver e, quase um minuto sem respirar,
ao regalar meus olhos, já esbranquecido, meu irmão resolveu ao deixar de
gritar, comprimir minhas costas em seu peito e a vida voltou a correr nas
minhas vias aéreas. Que alívio sentir o ar preencher meus pulmões novamente. De
uma coisa tenho certeza: tão cedo não volto a comer minha comida preferida –
carne moída.
São Luis - MA 26/04/2018

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